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16.4.11

Pacientes na hemodiálise e Mitos .

O processo grupal com pacientes na hemodiálise
a saúde sob o enfoque da expressão artística e da contação de histórias

“A vida é um sentimento de liberdade a cada piscar de olhos, deixa o nosso pensamento fluir e se encher de energias positivas para que o mundo conspire a favor da gente! Ame sua vida como um cristal, suave e doce. Brilhe e deixe sua vida irradiar Alegria!”
Não farei aqui uma descrição detalhada de todo o método utilizado, mas comentarei, apenas, sobre alguns pontos necessários ao que pretendo desenvolver, ou seja, a saúde, ainda que falemos em doença e, mais especificamente, Insuficiência Renal Crônica (IRC)

PSICOLOGIA SOCIAL E ARTETERAPIA

Na linha da Psicologia Social de Pichon-Rivière, com a qual trabalho, o importante em um grupo operativo ou grupo criativo, é que os participantes aprendam a pensar juntos, e compartilhar o que conhecem. Sob esse ponto de vista, pensamento e conhecimento não são fatos isolados, mas sociais - nascem na relação com o outro. Esse outro nos provoca sensações, emoções, intenções, perguntas nos oferecem respostas, hiatos, entusiasmo, desafios e assim por diante.
Assim podem exercitar o protagonismo em seu dia-a-dia, sendo autores de seu destino, rompendo com a mesmice.
Arte terapia atua de forma complementar à Medicina, tal como a fisioterapia, acupuntura e outros. Seu reconhecimento, como auxiliar desta. Ocorreu no século passado, mas desde 1876 há pesquisas sobre arte e psiquiatria. Utiliza materiais e técnicas da Arte, mas não tem a pretensão de formar artistas. No entanto, muitos talentos latentes - isto é, que estão adormecidos - pode ser despertado. A expressão artística é uma forma de acolhimento dos nossos potenciais e reconhecimento da nossa sensibilidade.
Em nós, há um mundo de experiências interiores, rico em símbolos e significados variados. Isto quer dizer que temos, em nosso interior, conteúdos que só podem ser acessados e expressos via linguagem artística. Como os expressamos? Nós o fazemos por meio da literatura, pintura, colagem, escultura enfim, temos diferentes formas de “falarmos” através da construção artística. Isso pode parecer estranho porque não fomos educados, via de regra, a utilizar essa linguagem em nosso cotidiano.
É necessário ser um artista para fazê-lo? Não. Observamos isto nos vários trabalhos realizados pelos pacientes, muitos dos quais verbalizaram que só o fizeram quando na escola e achavam que não conseguiriam concretizá-lo, outros nunca fizeram nada igual, nem na escola, e outros, nunca foram à escola. No entanto, ficaram felizes ao ver sua produção e mostrá-la aos demais colegas, pacientes da hemodiálise. Assim, novos temas – que não apenas a IRC – começaram a fazer parte de suas conversas no Hospital.

MÉTODO

As atividades propostas buscavam oferecer aos pacientes um auxiliar terapêutico com a finalidade de contribuir para o alívio de suas angústias, tensões relacionadas à doença e suas consequências, bem como colaborar para sua inserção na realidade com uma qualidade de vida melhor em todos os aspectos (físico, afetivo, social, entre outros), isto é, mais prazer em seu dia-a-dia.
Além disso, seguindo um roteiro, elaborado por mim, verificava se as práticas contribuíam para alterar a qualidade do sono, do humor, e como isso se refletia em outras áreas de suas vidas. Havia também contatos com as enfermeiras, os técnicos de enfermagem e entrevista com o médico responsável, com o intuito de ampliar os dados a respeito dos pacientes.
Usamos vários recursos arte terapêuticos encadeados e articulados ao objetivo proposto.

RECURSOS ARTETERAPÊUTICOS

Para a quebra de conteúdos já enraizados e cristalizados na mesmice do dia-a-dia dos pacientes, vou relatar, apenas, dois de uma cadeia de procedimentos (para os vários sentidos como audição, tato, visão, olfato) que constituem um método, para pacientes em estado de vulnerabilidade. Esse processo foi se construindo ao longo do tempo, mas não o abordaremos neste artigo. Sua finalidade era propiciar uma melhoria no quadro de saúde. São eles:  a expressão artística dos sentimentos, imagens, sensações, ou ainda, conteúdos interiores acionados pelas atividades propostas, por meio de vários materiais adequados aos pacientes da hemodiálise como lápis de cor, giz de cera, colagem em cartolina, papel sulfite, tecido, entre outros. A contação de histórias que podem nos ensinar, aliviar nosso coração nas dificuldades, oferecer acolhimento, podem transformar os sofrimentos, amenizar ou mesmo curar nossas feridas. Foram usadas para que os pacientes pudessem recriar suas próprias histórias e não, para as ouvirem como meros espectadores, tão somente.

HISTÓRIAS EM DESTAQUE

Gostaria de comentar, em função do nosso tema, sobre o Sr. Juarez (nome fictício). Não havia brilho em seu olhar, nada significativo era percebido em sua vida. Durante o processo, ele e outros pacientes diziam “ter uma vida normal” e, depois de estabelecer um vínculo de maior confiança comigo, falavam de como esse processo “mexia com tudo”, e até ouvi que a vida era como a de “um vegetal”.
Essas falas muito me impactaram. Se havia aqueles e aquelas que lutavam e permaneciam com um sorriso nos lábios, entendi essas frases como algo que podia estar presente no grupo, ainda que essas questões não fossem abordadas diretamente, compondo o que denominamos de conteúdo implícito ou não ditas.
Sr. Juarez, e as outras pessoas, do meu ponto de vista, representavam o que, no referencial teórico da Psicologia Social de Pichon-Rivière, é chamado de porta-voz grupal. Isso diz respeito a alguém, ou algumas pessoas que expressam algo seu, mas também falam, sem o saber, ou seja, de maneira inconsciente, de algo que circula no grupo. Um exemplo, só para que isso fique claro, é do filho de pais que estão se separando e possuem dificuldade em estabelecer um diálogo sincero, genuíno sobre esse processo. A criança começa a ter dificuldades de aprendizagem na escola. A dificuldade é da criança, mas ela está sendo uma mensageira, uma portadora da dificuldade de aprendizagem que assola o grupo familiar nesse novo momento. Como vimos, estamos imersos em grupos aos quais pertencemos e falamos por nós e, muitas vezes, em nome deles, sem nos darmos conta desse processo.

A IMPORTÂNCIA DO SONHAR

Eu perguntei ao Sr. Juarez se ele não sonhava mais, se ele não ensinava seu netinho a sonhar... a ir para outros lugares em seu coração. Ele, apenas, me olhou e nada disse.
Para o Sr. Juarez escolhi a história , abaixo, que reconto a você, leitor/leitora, como recontei a ele e a todos os participantes do grupo:
Era uma vez um mascate que tinha uma vida muito pacata e simples. Vivia numa velha casa, com algumas vidraças quebradas, por onde entravam pássaros que cantavam bem cedinho, acordando o mascate. À noite, quando havia lua, o céu prateado, juntamente com o brilho das estrelas, entrava em sua casa e o convidava a sonhar, além de deixá-lo muito feliz! Havia também em seu quintal, além de outras árvores, uma macieira linda, linda, cujos frutos eram doces, doces e muito, muito saborosos!
Esse homem vendia de tudo: agulhas, pedras variadas, preciosas e semipreciosas, tecidos multicoloridos, partitura de canções, sabonetes, perfumes e até colchetes. Assim era sua vida: saia pela cidade e vizinhança para vender seus objetos e voltava, sempre acompanhado pelo seu fiel cãozinho “Cara Suja”! No entanto, havia um sonho que se repetia várias e várias vezes. Ele dizia ao mascate: “Você precisa atravessar a ponte!”. O mascate acordava assustado, suando em bicas! Mas em seguida, dizia para si mesmo que aquilo era apenas um sonho e continuava seus afazeres, sua rotina. Começava a ir para lá, para cá, falava com um, vendia para outro e o Cara Suja, também, ia para lá e para cá com ele e, assim, aquelas emoções e pensamentos passavam lentamente...
Até que, um dia, aquela voz começou a ficar constante. Não era mais só durante o sono que vinha para lhe dizer, sempre a mesma coisa: “Você precisa atravessar a ponte!”. Durante todo o dia ela o surpreendia. E ele se dizia: “a gente não tem que dar ouvido a sonhos!”
No entanto, essa voz foi ficando tão, tão, tão forte e ele foi descobrindo que outra parte dele mesmo lhe dizia: “sonho é uma coisa preciosa!” Assim, ele resolveu, finalmente, fazer a viagem que o levaria além da ponte. Pegou seu farnel e o encheu com água límpida e cristalina, a comida, a Cara Suja e foi na direção do outro lado da sua cidade. Era uma longa jornada que levava um mês!
1 - Anotações da história contada por Alessandra Giordano,
em seu ateliê, em 10 de março de 2008.
Quando chegou à cidade havia tanto trânsito de carroças! Olhou para um lado, olhou para outro, não via nada de excepcional. Até que avistou um rio. Para ele se dirigiu, ao mesmo tempo em que pensava: “o que devo aprender aqui?” “Por que devo estar aqui?”
O tempo foi passando, a água e o alimento foram terminando, o dinheiro também. E ele não sabia o que tinha de aprender. A noite chegou e ele imaginou que algo lhe traria a informação. Mas nada ocorreu e ele, desanimado, se questionava sobre a loucura que fizera.
No dia seguinte, atravessou a rua e ficou sentado em um degrau de uma pequena escada que levava à porta de uma loja muito bonita, de artigos femininos e refinados. O dono da loja, um homem empertigado, bastante imponente lhe perguntou: “Forasteiro, o que o traz aqui à porta de minha loja?” O mascate, humildemente, lhe relatou a história de sua viagem até aquela cidade. O homem imponente começou a rir do mascate às gargalhadas e lhe disse que também tinha sonhos que se repetiam, mas imagine se fosse dar atenção a isso, sonhos são sonhos, mas a realidade é muito diferente! “Imagine, disse ele ao mascate, tenho um sonho que me diz para ir a uma cidade - cujo nome era de onde viera o mascate - e lá há uma casa com uma macieira centenária belíssima, sob a qual há muitos tesouros.” Ao ouvir isso, embora o tal homem continuasse a falar, o mascate saiu apressado e nem mesmo se despediu direito. Voltou rápido, rápido, muito rápido! Até Cara Suja tinha dificuldade para acompanhá-lo. Fez o percurso de volta à sua casa na metade do tempo. Quando chegou, esbaforido, foi direto à macieira, revolveu a terra e, qual não foi sua surpresa: havia três grandes arcas cheias de moedas de ouro e pedras preciosas. Ele ficou paralisado, mas muito, muito feliz! Mas como era muito generoso, distribuiu dois desses baús para a gente da sua comunidade, e ficou com um para realizar seu sonho de ser feliz...
E qual é o seu sonho, perguntei a todos? Pergunto a você, leitor/leitora, o mesmo: qual é o seu sonho?

AS MUDANÇAS EXPRESSAS EM CORES E FORMAS

Aos poucos Sr. Juarez foi se entregando aos exercícios e fazendo a meditação proposta. O resultado é que passou, durante o tempo dessa pesquisa, a deixar de ter insônia, a mudança de seu comportamento foi sublinhada pelo médico, responsável do plantão em nosso dia, que apontou o fato dele “estar mais calmo”, passando a solicitar menos a equipe da enfermagem, fato esse desconhecido por mim, até então. Sua última produção, em guache, ilustra uma imagem que se assemelha a um céu, colorido e belíssimo! Algo inacreditável!
Quando sua produção foi mostrada aos seus colegas, os outros pacientes, todos, sem exceção, expressaram o quanto tinham admirado, pelo microfone (sim, adquiri um microfone e uma caixa de som! Assim, todos podiam falar e serem ouvidos, ainda que sentados, no amplo salão da diálise em forma de oito) para que ele ouvisse, o que o fez se emocionar.

EQUIPE DE ENFERMAGEM

A equipe de enfermagem foi mobilizada pela expressão artística dos pacientes. Havia um empenho para que as obras fossem produzidas, houve emoção, desejo de compartilhar o material como confecção de flores e folhas, sugestões para que fossem colocadas no painel transportado durante as sessões para o salão da hemodiálise, assim como as rodinhas no painel para que sua locomoção fosse facilitada. Outros setores também participaram, como os que trazem a refeição para os pacientes. Enfim, a atividade funcionou como um eixo organizador da interação e expressão de sentimentos presentes no coletivo.

ALGUNS DOS RESULTADOS
Os trabalhos, feitos durante a sessão de diálise em que os (as) pacientes só utilizavam uma das mãos, pois a outra estava com o cateter, culminaram numa amostra coletiva de seus trabalhos, exposta no Hospital. A finalidade dessa exposição era que todos os pacientes pudessem se reconhecer como pessoas criativas, produtivas, capazes de se expressar com cores, com muita beleza e não, apenas, como portadores de IRC, à espera de um transplante ou sem perspectiva de viver com uma melhor qualidade. Nessa amostra, houve expressões artísticas individuais e coletivas. Não é preciso dizer o quanto essa experiência lhes foi significativa. Durante a exposição, a filha de uma paciente relatou como sua mãe ficou “eufórica” com a própria produção. Sabemos como a alegria é um importante auxiliar, no quadro de todos e todas pacientes, ao incrementar a endorfina, o chamado hormônio que provoca a sensação de felicidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nessa experiência foi possível notar, a partir da fala daqueles pacientes comprometidos com a nossa proposta, que conseguiram se tornar mais tranquilos, ter esperanças, ter mais segurança em si próprios, melhor disposição de humor, sono com uma melhor qualidade e perceberam que o tempo passava mais rápido durante o processo de diálise. O médico, responsável pelos serviços nesse dia, e alguns técnicos da enfermagem falaram da diminuição das intercorrências como: câimbras, solicitações para virar de um lado e outro da cadeira, queixas sobre a pressão, dor de cabeça e outras para que a diálise se encerrasse antes.
Essa produção coletiva pode parecer algo simples e singelo, mas todos sabem do seu grande significado. De uma forma simbólica, metafórica, as pessoas exercitaram não a passividade, mas o protagonismo da sua própria história, ou seja, a direção dos fatos, a produção conjunta. Lembrando que é com o outro que nos descobrimos e podemos nos tornar mais inteiros são com o outro, e com suas percepções a nosso respeito, que ampliamos o sentido de quem somos e o que provocamos ao nosso redor, afinal todos temos um curador e um criador interior, acionado pelo grau de dedicação de cada um, e não apenas pela atuação do psicólogo.
O trabalho esteve pautado pelo processo de criação e recriação de nossas buscas, nossas dores, procurando embarcar numa aventura de simplesmente ser quem somos.
O intento do trabalho foi cumprido. Não o de distrair os pacientes, mas de encontrar um sentido para a vida! Significou empreender uma jornada que exigiu, no mínimo, coragem para se abrir ao novo. Sabemos que não basta, somente, abrir as portas, é necessário se comprometer com as mudanças em um lugar profundo de nós mesmos, e de forma perseverante. Essa proposta foi firmada pelo desejo de desencadear um processo de releitura do cotidiano, ou seja, de rompimento da rotina de ser sempre do mesmo jeito. Um jeito viciado de achar que não podemos incluir, onde quer que estejamos, cores, novos e bonitos sons, calor humano e criação. E quem disse que isso precisa ser somente por meio do sofrimento? Esse foi o sentido desse trabalho, que se estendeu além dessa amostra coletiva, pois a beleza, a expressão artística e a troca de experiências genuínas e revitalizantes, com o outro, propiciam uma melhor qualidade de viver nossa humanidade.

MITOS, SEXUALIDADE, ADOLESCENCIA E SOCIEDADE.

A nossa sociedade ainda é muito repressora ao falar de sexo. Existe uma falsa liberdade e muita hipocrisia reinante: sexo é sempre caracterizado perdendo-se muita qualidade com tal postura. Percebe-se em todos os indivíduos o reflexo deste recalque. Um exemplo clássico, um tanto antigo e, ao mesmo tempo, cada vez mais atual, é o da gravidez na adolescência. Apesar da quantidade de informação veiculada ainda persiste como assunto de extrema importância social e receio entre os adolescentes.
Acontece que as adolescentes ainda usam mal a tabelinha, pouca informação prática é oferecida - isso quando a correta informação atinge o universo deles e muitas garotas tomam pílula somente nos dias em que mantém relação sexual, colocam um absorvente com vinagre antes do coito, numa tentativa de anticoncepção, ou ainda acreditam que na primeira relação sexual não se engravida. Tudo isso, claro, não funciona e acaba gerando muita insegurança. Os meninos, por sua vez, ainda assumem a postura machista de deixar a anticoncepção por conta delas, como se a eles só coubessem a penetração e a elas, passíveis em todo o ato, tivessem que tomar conta de todo o resto.
Um método anticoncepcional cuja utilização tem crescido entre as meninas é a pílula. Mas vale lembrar que aquela que serve para uma amiga não serve para todas as outras. Cada uma tem um organismo que reage de forma diferente. Porém, elas relatam grande desconforto com a possibilidade dos pais descobrirem a cartela denunciando uma vida sexual ativa. Sabe-se da necessidade de se cuidar, mas o ter que "fazer escondido" gera angústia e falta de autonomia.
Já com os meninos, o medo é de broxar. Ficam imaginando o que aconteceria com a reputação deles se não "dessem conta" do recado. Por isso, muitos estão tomando Viagra, medicamentos desenvolvidos pela Pfizer usada para tratar impotência masculina, como uma medida paliativa - e irresponsável - contra a disfunção erétil. Além disso, o temor do tamanho do pênis já é algo que acompanha os meninos nessa idade.
Uma coisa é certa: todos estão no "mesmo barco" com as mesmas angústias e temores. Compartilham as informações e as dúvidas com os amigos que sabem tanto quanto eles próprios. E nessa roda de "troca" de conhecimentos, viciam as mesmas questões e acabam cristalizando erros por falta de informação.
Tal quadro é alarmante. Hoje pais e educadores parecem se preocupar mais. Por outro lado, a rapidez da vida atual não deixa tempo para que seja entendido de quem é afinal a responsabilidade de tal assunto: da escola ou da família. Mas será que ao se tratar de sexualidade há como fazer uma educação fragmentada, pela escola OU pela família?
A melhor educação é aquela que fixa limites: os indivíduos em desenvolvimento precisam para que possam assumir responsabilidades e os pais necessitam de limites no papel de educadores já que não podem determinar a vida dos filhos para sempre. À escola cabe punir o aluno contra a transgressão da lei além da obrigação de protegê-los. Pela falta de procedimentos educativos sexuais, as deformações dos pensamentos circulam livremente. A ausência da institucionalização da educação sexual alimenta e autoriza opiniões e conceitos distorcidos sobre as questões sexuais.
Vale se questionar: "De onde tiramos tanta crença que só faz empobrecer e dificultar o sexo?" Estas mensagens entram com facilidade em nossas mentes, porque temos uma insegurança básica sobre sexo e anseio por qualquer informação sexual. Por ser um dos mais essenciais exercícios do instinto humano, o sexo tem sido causa de numerosos desacertos e mitos, pois nossa sociedade ainda é preconceituosa e ignorante em relação à sexualidade.
Os mitos são instituídos com a função de divulgar a expressão social, e são perpetrados através das gerações. Dificultam o acesso a uma vida sexual saudável e sem angústias, levando inadequações e disfunções sexuais. Eles desenvolvem-se no ambiente dos temores e proibições que induzem ao sofrimento dispensável. Esse ambiente propicia o surgimento de novos mitos, reveladores de receios e inseguranças pessoais, não permitindo a satisfação plena. Um excelente remédio contra esse mal-estar, não só para os adolescentes, mas para todas as pessoas em geral é a informação e sinceridade para poder lidar com tais crenças e (reconquistar) conquistar a habilidade de realização.
A gravidez pode ocorrer sempre que a mulher estiver no período fértil e tiver contato com o esperma do homem (que sai inclusive, mesmo que em pequenas quantidades, antes da ejaculação) no canal vaginal. Assim, se o menino ejacular fora, com famoso coito interrompido, mas o esperma escorrer para a vagina, a menina corre o risco de engravidar.
Postagem Completa!

Solidão e Ciúmes.

EU ME SINTO TÃO SÓ!
O essencial é invisível aos olhos (Saint-Exupéry)

O QUE NOS FAZ SENTIR QUE ESTAMOS SÓS?

Acredito que este seja um estado muito comum em nosso tempo. A impressão que tenho é que as pessoas não foram acolhidas e educadas para o contato consigo mesmas. Gilberto Safra comenta o quanto algumas pessoas não têm “experiência de lugar”. É como se dentro delas não houvesse um espaço para entrarem, silenciosamente, em conexão com essa dimensão mais íntima do próprio ser. Lembro-me que, certa vez, quando atuava em uma comunidade, e minha função era atender às mais diversas pessoas, vieram me perguntar se poderia falar com uma menina de 8 anos, que não estava com os pais, mas viera com uma de suas vizinhas. Respondi que sim, claro. Mas qual não foi minha surpresa quando aquela criaturinha me expôs sua questão. Disse-me ela: “eu me sinto tão só!” É evidente que quase caí da cadeira!
Na época, fui explorando com ela o motivo desse sentimento. Ficava com os avós, pois a mãe casara-se com outra pessoa, e não a levara para morar consigo. Enfim, tivemos outros contatos e me pareceu que não apenas o seu sentimento, mas a relação com seus avós se transformou e, com o tempo, com a sua mãe também.
Hoje, no consultório, muito frequentemente, convido os meus pacientes a criarem um espaço de aconchego, dentro de si próprios, um jardim – que por ser de cada um, que por ser íntimo – o chamo de sagrado. Eles, de uma maneira geral, vão se acostumando a comungar com esse espaço e, paulatinamente, a descortinar cenas, imagens e mensagens às quais nunca haviam prestado atenção. Assim, vão se aventurando nessa casa interior que, por não ter sido notada, não era habitada. Quando estava redigindo esse texto, soube de jovens, no Rio de Janeiro, que atacaram prostitutas e travestis, e verbalizaram que não tinham a intenção de agredir, inclusive pediram desculpas às vítimas. O pai de um deles disse se tratar de uma brincadeira de crianças, o que, a seu ver, não merecia punição.
Esse fato, que infelizmente não é isolado, mas representa uma série de outros que têm se reprisado, parece revelar que estamos diante de uma questão muito séria: quem somos nós? E mais, o que nos faz pensar que brincar com algo que pode assustar ou ferir o outro nada tem a ver conosco, e é uma brincadeira como outra qualquer? O fato de nos sentirmos tão desligados, tão distanciados do outro, enquanto alguém que, como nós, vive , ama, tem fome, sede, e que também procura “um lugar”, um lugar para ser, ser melhor. Isso tudo é muito preocupante, enquanto fato social.
Fico pensando o quanto esses jovens, tal como aquela criança, não têm um lugar dentro de si, não aprenderam e, talvez, não se interessem em aprender a refletir sobre como seu destino se liga aos dos outros, ou seja, descobrir e conviver com a constatação do quanto somos interdependentes. Será que se dão conta de que iniciam um movimento onde eles mesmos podem ser também vítimas? Como seria se outras crianças resolvessem brincar com o mesmo jogo, mas com esses jovens? Afinal, um jogo pressupõe que os parceiros troquem de papéis.

A DINÂMICA INVISÍVEL DAS RELAÇÕES: UM POUCO DE HISTÓRIA

O quanto não se fala e não se investe no conhecimento sobre as redes invisíveis às quais todos nós pertencemos, o quanto não se explora esse implacável interjogo homem/mundo. E aquilo de que não se fala, parece não existir. Se as dificuldades na relação não são verbalizadas, quer dizer que não existem? Parece não termos acesso a nossa própria profundidade. Lembro-me da história do som do silêncio. Um rei desejava que seu filho fosse um grande homem e, por esse motivo, o envia a uma mestra. Esta lhe pede que vá até a floresta e ouça todos os sons e volte depois de um ano para lhe relatar. Ele descobre sons maravilhosos dos quais nunca se havia dado conta: o farfalhar das folhas, o cantar dos pássaros, enfim. No entanto, ao relatar à mestra esta lhe pediu que voltasse e ouvisse todos os sons que pudesse. Intrigado, porém obediente, o príncipe retorna à floresta. Continua ouvindo os mesmos sons. Até que, após apaziguar o seu coração, quando o sol nasce começa a ouvir a própria respiração e, em seguida, sons maravilhosos, nunca antes notados. Ele espera para ter certeza, antes de procurar novamente a mestra. Certifica-se calmamente.
Ao chegar até ela, relata, humilde e pacientemente, que ouvira o som de uma flor nascendo, o seu som ao sorver o orvalho que nela ficara durante a noite, o som do sol aquecendo a terra... ao que a mestra complementa, dizendo que esses são os sons inaudíveis, pois o homem começa a perder o espírito quando se atém apenas ao som das palavras, sem escutar que mensagens elas trazem ao seu coração... Quem passa a ouvir o coração das pessoas, torna-se uma pessoa confiável porque compreende o que o outro sente e necessita! Não é preciso dizer que esse príncipe tornou-se um sábio rei, e houve muita prosperidade em seu reino e a gente de seu reino foi muito feliz.
Talvez devêssemos pensar se estamos nos esquecendo de refletir sobre o quanto as brincadeiras servem como meio de socialização: dividir, cooperar, trabalhar, competir em um nível lúdico, sensibilizar-nos com nossos companheiros, enternecer-nos, lidar com as diferenças, mas também obedecer a regras de convivência, de lealdade e respeito. Quando os limites externos não são suficientemente internalizados, não há contenção dos próprios impulsos, e inicia-se um processo de pequenas transgressões que podem, gradativamente, ir se engrandecendo. Foi isso o que William Bratton percebeu ao atuar em Nova York, quando o índice de criminalidade era altíssimo. Suas pesquisas concluíram que os grandes crimes iniciavam-se com as pequenas infrações como, por exemplo, pular - por brincadeira - uma catraca, e não obter nenhuma punição...

O MAL DE NOSSO TEMPO: A FALTA DE ACOLHIMENTO

Acredito, ainda, que um dos males do nosso tempo seja o fato de crianças, desde pequenas e independentes da classe social, aprenderem a crescer sós. É comum a própria mãe solicitar à babá de seu filho que preste informação sobre o mesmo à psicóloga, quando esta lhe solicita uma entrevista. Muitas vezes, parece não haver pessoas por perto para com um olhar terno, uma presença firme, poder ser referência, ser o que os psicólogos sociais, da linha Pichoniana, chamam de Interlocutor Suporte. Aquela, ou aquelas, pessoas que ficam como um modelo interno, um guia que pode nos amparar e iluminar nosso mundo interior, quando diante de borrascas ou decisões importantes. Parece que acalentar a cria está fora de moda. Só que essa cria cresce, e acha que viver é isso!
Esquecemos de oferecer aquele bálsamo que temos dentro de nós, e que é tão importante. Aquele bálsamo que encontramos no nosso amigo, quando ele simplesmente fica ao nosso lado, ainda que em silêncio. Aquela pessoa importante para nós - seja pai, mãe ou quem exerça a função paterna ou a função maternante - que dá limites e mostra que não, não se pode agir de determinada maneira com o semelhante e, mais que isso, ele ensina com seu próprio exemplo, que fala muito mais que mil palavras. Mas fala de um lugar interno bom, construtivo, porém firme.
Embora reconhecer o erro doa - e muito! – ao estarmos diante de pessoas que, calorosamente, nos fazem repensar nossas ações, sentimos, junto com a dor, algo que nos aquece e nos fortalece para recomeçarmos a jornada, tão humana e tão fascinante, de auto-aprimoramento. É como se nos encontrássemos com alguém muito, muito querido - e tão procurado!-, mas absolutamente esquecido: o nosso eu verdadeiro, inteiro. E esse eu se torna cheio de ‘músculos’ quando percebe que tem algo que pode ser compartilhado, e que alimenta outros, isto é, deixa felizes outras pessoas. Afinal, a maturidade de um ser humano é percebida quando ele sente prazer em propiciar prazer ao outro, e não o prazer, simplesmente, por fazer do outro um joguete. Esse fato não ocorre apenas nos casos citados, mas, também, nas relações afetivas entre homens e mulheres.

A QUEM RECORRER?

O ego fortalecido, do ponto de vista psicológico, não do ponto de vista popular, sabe administrar as demandas internas com as demandas do meio ambiente. Já o ego mais frágil, como por exemplo, sentir uma vontade imensa de obter prazer simplesmente pelo prazer, sem medir as consequências, evidencia uma fragilidade em se colocar no mundo com seus desejos, de maneira que os demais sejam percebidos e respeitados, assim como se exige o próprio respeito.
Quem não passou, ainda, pela experiência de poder “segurar a onda”, não só para salvar sua própria pele, mas também reconhecendo o bem comum, deve tentar. Afinal, a sabedoria vem da experimentação.
Nesse sentido, o acompanhamento terapêutico pode facilitar essa reconstrução, desde que o grupo familiar esteja disposto a refazer sua maneira de pensar no dia-a-dia. A inserção dessas pessoas na comunidade, com responsabilidades e acompanhamento, também pode resultar nelas uma mudança e, consequentemente, a criação de uma nova sociedade. Acho que todos nós deveríamos ficar mais atentos a essa “ferida” “social, e encontrar ferramentas para, cada um a seu modo, colaborar na cura coletiva”.

E AGORA?

Você já experimentou isso? Não? Que pena! Descobri-lo é deparar-se com a nossa HU-MA-NI-DA-DE, no sentido construtivo do termo! É, você pode optar por construir ou destruir o outro e, sem que você perceba, você mesmo. Você pode optar por se encontrar, assumir seus atos, responsavelmente, ou se distanciar de si próprio, e agir infantil e irresponsavelmente, como se não soubesse que uma parte sua quer fazer o que bem entende e outra quer muito dialogar e lhe perguntar: ei, até quando você vai achar que o outro não tem nada a ver com você?... Afinal, se um tsunami chegasse e você ficasse sem nada, será que você teria coragem de se olhar e ver quem é você?

SENTIR CIÚMES

O ciúme surgiu há muito tempo, sendo até hoje uma emoção humana extremamente comum. O homem precisava se proteger da traição para não gastar seus recursos com uma prole que não fosse a sua. Já a preocupação da mulher era em como manter o estoque de comida, e quem iria trazê-la. Assim, hoje, os evolucionistas acreditam que o que provoca ciúmes em homens e mulheres são eventos diferentes. Outros já entendem o ciúmes como uma criação capaz de proteger os laços sociais.
No século XIV, o ciúmes conotava paixão, sem nenhum sentido pejorativo. Ainda hoje, nas sociedades monogâmicas ele encontra-se, muitas vezes, ligado à proteção familiar como sinônimo de amor e cuidado, onde o desejo maior é a preservação do relacionamento visto que tal sentimento está ligado a perda do outro ou do espaço afetivo da relação. Ou seja, o ciúme é um sentimento ego centrado originado no medo de perder a pessoa amada, misturado ao sentimento de deixar de ser especial.
Na verdade, são muitas às vezes em que o ciúme deixa de ser sinônimo de prova de amor transformando-se em exemplo de insegurança e de posse. Dessa forma, longe de ser um tempero para o relacionamento, ele não tem como ser considerado um sentimento construtivo, podendo acabar com a relação, e causando sofrimento para ambos os parceiros. Mas, também ,pode ser considerado “natural” a pessoa sentir ciúme em certas situações em que se perceba ameaçada de exclusão. Num maior grau, a sensação de angústia é permanente, havendo uma constante tensão, enfraquecendo o relacionamento.
O outro, a qualquer momento, poderá estar mandando sinais de que vai abandonar a relação e essa dúvida faz com que a pessoa fique alerta todo o tempo, consumindo os três: o ciumento, o (a) parceiro (a) e a relação. Em um momento mais crítico, insegurança e desconfiança são capazes de criar uma realidade paralela que não condiz com a verdade. Apesar disso, a pessoa passa a vivenciá-la, pois a linha divisória entre imaginação e certeza é tênue. As dúvidas se transformam em pensamentos supervalorizados onde o ciumento é coagido à investigação compulsiva de suas (in) certezas. Por mais que toda e qualquer tentativa de diminuir tais sentimentos não sejam capazes de reduzir o mal estar sentido, há uma constante busca pela comprovação de suas suspeitas, o que leva a mais incertezas, pois, por mais que o (a) parceiro (a) conte a “verdade”, ela é insuficiente.
Muitas pessoas se criticam por tal comportamento e tentam, inutilmente, afastá-los, sentindo culpa e uma enorme tristeza, enquanto os que não veem sua atitude como injustificada, apresentam raiva e comportamentos violentos. É um comportamento muito parecido com o que é experimentado pelos pensamentos obsessivos: são indesejados, intrusos, considerados desagradáveis, irracionais e seguidos de atos de verificação. A pessoa muitas vezes carrega sentimentos de raiva, vergonha, humilhação, culpa, desejo de vingança, relacionado com uma baixa autoestima. Muitas vezes, podem ocorrer homicídios e atos violentos, mas fica difícil falar em estatísticas, pois, muitos não se defendem ou procuram serviços médicos.
Pode-se dizer, de forma resumida, que o que caracteriza o ciúme patológico é o anseio de um domínio total dos sentimentos, pensamentos e comportamentos do outro, desenvolvido pelo entendimento de alguma ameaça à estabilidade ou qualidade do relacionamento, visando excluir os perigos da privação do objeto amado. Assim, é uma resposta frente a um perigo percebido onde o rival pode ser real ou imaginário.
Deve-se levar em consideração a avaliação da racionalidade dessas preocupações, assim como o grau de limitação ou prejuízos causados. Avaliar também o grau de crítica do individuo em relação a essas idéias e o sofrimento que acarreta, levando em consideração seus reflexos no lazer, na vida social, afetiva e no trabalho. Os fatores precipitantes também são dignos de atenção, como é o caso de comportamentos provocativos do (a) parceiro (a), estresse, mudanças ou perdas.
Tal sentimento pode trazer sofrimento para quem o sente. Mas ciúme não é defeito, é uma emoção difícil de suportar, pois sentir-se se excluído é sempre doloroso. O outro é inimitável. Funciona mais ou menos assim: se o outro está chamando mais a atenção do que eu, ele tem algo que eu não tenho. Desta forma, perco a confiança em mim, sou inferior. Para o ciumento, nada é justo se ele não tiver tudo para si.
Vale ressaltar que tanto o ciúme quanto a inveja são manifestações naturais e dizem respeito à dificuldade que temos de aceitar nossas diferenças e que nunca teremos tudo aquilo que desejamos. A forma de contornar essa situação é entender que as pessoas têm comportamentos e atitudes diferentes conosco porque, antes de qualquer coisa, também são diferentes.
Quando a pessoa chega a terapia com tal queixa, o foco é que ela possa aprender a lidar melhor com a rejeição ,e tornar-se um indivíduo capaz de se relacionar com as pessoas e com o meio onde vive, sentindo-se aceito e aproveitando o melhor dos diferentes momentos. 
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A RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE.

A RELAÇÃO MÉDICO-PACIENTE

RELAÇÕES INTERPESSOAIS

Estou iniciando um espaço para pensar e sentir, com você, o significado da relação médico-paciente decorrente de uma emergência, e da consequente internação hospitalar, por apresentar, pela gravidade, seus significados mais evidentes embora, nas devidas proporções, também possa ocorrer em outros contextos.
As implicações das relações interpessoais nesse contato podem ser passageiras, mas são sempre profundas, por haver interferências internas, das pessoas, e externas, das instituições, que afetam de um modo geral, a vida de quem adoece.
Minha intenção é que você pare e reflita, converse comigo, tenha uma consciência inédita do que essa relação pode provocar em ambos, no paciente e no médico.
Para criar um pouco de magia nessa reflexão, e aproximá-la de nossa própria vida, começo o tema com uma fábula, mesclando fantasia e realidade. Pode parecer inusitado, e de fato o é, mas quero provocar a sua imaginação, quero que você navegue por experiências cotidianas, quem sabe de você mesmo, ou de pessoas bem próximas a você.
...Júlio abre os olhos devagar, e olha o teto branco. Sente-se meio perdido, tem a sensação de não saber onde está. Fecha os olhos, como se fosse dormir novamente, e pensa, preciso me levantar, não quero me atrasar para a conferência de abertura do congresso. Devagar, querendo e não querendo, mexe o corpo e sente dor nas costas. Diz para si mesmo, precisa de um analgésico, minha coluna não se deu bem com a viagem prolongada de avião. É quando tenta mexer o braço, e não consegue, que se dá conta de tudo o que lhe acontecera. Sabe que está em uma UTI de algum hospital, e em segundos recorda-se da operação de urgência, do tumor, de tudo que parecia ter virado sua vida pelo avesso. Mas o primeiro obstáculo foi vencido, está vivo, já é um bom começo, após a tragédia.
Adormece, acorda e o tempo passa. Pensa, quero alguém perto de mim. Pergunta-se pela equipe médica, deveriam estar aqui, será que estiveram? Quero Rosa junto de mim. Não gosto de estar sozinho. Geme, está ansiosa, espera que apareça alguém e alivie sua dor nas costas. Pensa na viagem, no congresso médico, recorda-se que está em Viena, faria uma conferência... Já não sabe mais se está acordado ou dormindo, parece que passa sua vida a limpo... Como num filme, cenas do passado se atropelam umas as outras. Tem vontade de abrir os olhos e constatar que está sonhando. A dor nas costas é insuportável. Uma enfermeira aparece, olha os aparelhos, fala com Júlio, que parece adormecido, e que quando abre os olhos a vê saindo do quarto. Murmura para si mesmo, onde está a equipe médica! Estou sozinho, eu e a morte.
Lembra-se de quando chegou ao hospital. O carinho dos colegas em um país que não é o seu, eles fizeram de tudo para que eu fosse atendido com rapidez e eficiência. Pensa na aflição daquele dia, de ontem, parece ter essa certeza, olhei em um espelho no saguão do hospital, e vi meu olhar de tristeza, de desamparo, antevendo o que poderia me acontecer. Senti medo, estava sem saída, sem escolha, tragicamente carente, precisando de proteção.
Os dias passam, Júlio melhora aos poucos e, como doente, começa a conhecer o outro lado da relação médico-paciente, vê o que nunca vira antes. Olha a morte de frente. Acha insuficiente a presença da equipe médica no quarto.
Surpreende-se com o carinho incansável de Rosa e do filho, que haviam chegado do Brasil. Nunca imaginara o quanto eles o querem vivo, e agora percebe, nessa dedicação, a força desse amor familiar. Acha que não usufruiu totalmente a qualidade da sua vida em família, e se pergunta se haverá tempo de expressar a Rosa, e a seus filhos, a sua gratidão. Terá muito que aprender, se sair curado, ou melhor, vivo!
Júlio vai descobrindo a solidão de ser paciente. Solidão insuportável, que só desaparece com a presença da equipe médica. A brusca reviravolta na vida parece ser mais mortal que a própria ameaça de morrer, ou pior, a sensação de começar a morrer aos poucos, a cada dia.
Mas, um milagre acontece quando chega a equipe médica, tudo se transforma, as esperanças se renovam, surgem novas expectativas, e o principal, a certeza de que tudo vai dar certo. Até as dores parecem desaparecer e fica sempre o desejo de que aquele momento não termine, que os colegas não o deixem sós com sua doença. A presença da equipe médica renova suas forças, motiva novas escolhas, repõe certezas onde havia dúvidas, medo, carências, que parecem matar mais que a doença. A equipe médica é como se fosse a própria vida que volta e vence o mal, aniquila a morte.
O grande fantasma é sentir-se frágil, perdido, ao perceber que sua vida mudou radicalmente. A maior dor é achar que perdeu para sempre a vida que tinha antes de adoecer...

A GESTÃO DA EQUIPE DE SAÚDE

Neste cenário é que vou aclimatar o significado da relação médico-paciente. Eu e você vamos refletir sobre a qualidade da equipe de saúde nesse atendimento.
Em primeiro lugar, é importante lembrar que nem sempre uma equipe é realmente uma equipe, ou seja, se articula em um trabalho conjunto.
Muitas vezes, há alguns procedimentos que são definidos para todos, e cada qual os integra a sua maneira. Nestes casos, a equipe é um somatório de pessoas que possuem objetivos próprios. Às vezes, há equipes em que as pessoas pouco se articulam, e cada um vive a seu modo os objetivos comuns. Estas pessoas ainda não formam uma equipe de fato, pois os interesses continuam sendo individuais. Uma equipe é a multiplicação de pessoas, entre elas há uma articulação em torno da concretização conjunta de seus objetivos comuns. Quando falo de uma equipe, me refiro a um grupo, por exemplo, o grupo familiar, o grupo de amigos, etc.
A gestão de uma equipe deve ser dinâmica e sinérgica, desenvolvendo um perfil profissional centrado em competências para um desempenho grupal, primeiro entre seus membros e, a partir daí, do grupo para fora; atua em um conjunto multiplicador de atitudes e comportamentos complementares.
Em uma equipe médica há papéis diferenciados que aumentam o nível de conhecimento sobre o potencial interno e externo, em termos de recursos humanos, de tal forma que cada profissional transfere aos pacientes essa maneira de conviver.
A equipe médica conta com a equipe de enfermagem. Ambas encontram nelas próprios alguns recursos para enfrentarem os desgastes que vivem nesse atendimento, mas, muitas vezes, necessitam de ajuda externa para poderem desempenhar o papel de estar de corpo e alma no atendimento ao paciente, ou seja, podendo sustentar, com a sua subjetividade, a fragilidade psicossocial decorrente da nova condição do paciente; podendo decifrar, compreender e acolher o desamparo, em decorrência da brusca ruptura do cotidiano, pela doença, pelo medo da morte, pelo desconhecido da nova situação, pela dor física e psíquica.

A QUALIDADE DO ATENDIMENTO

As equipes devem ter sensibilidade para compreenderem que a fragilidade do paciente enfraquece e adoece sua família, e que também acolhê-la significa um esforço adicional que muitos não querem, não aguentam, ou não sabem como fazer. Dependendo das identificações que podem surgir entre o profissional, o paciente e sua família, tornam-se frequentes as atitudes defensivas de incompreensão, ou de mal entendidos na comunicação, que mais traumatizam do que ajudam.
Em nome da eficiência, às vezes, médicos e enfermeiros se colocam em um distanciamento pouco eficaz, aparentam dificuldade para se colocarem por inteiro. Possuem excelente capacidade para procedimentos técnicos, mas nem sempre para atitudes profissionais humanizadas, como se o atendimento da equipe médica e da enfermagem não pudesse incluir ternura e acolhimento aos sentimentos que afloram na vivência do choque provocado pela doença.
A subjetividade do profissional deve estar presente e acolher com ternura a busca desesperada de equilíbrio por parte do paciente e de sua família, quando negam a doença, buscam curas alternativas ou, ao contrário, tentam ajudar com certa esperança, quando a doença é sentida como uma sentença de morte que anula qualquer expectativa.
Ao entrar no quarto do paciente, médicos e enfermeiros podem se envolver com intensas emoções, e perder a capacidade de acolhimento a partir do papel profissional; assumem atitudes como se fossem da família ou, ao contrário, nada os comove, se protegem em uma assepsia que gera insegurança no paciente, e raiva na família.
A relação médico-paciente é influenciada pela qualidade da equipe de saúde e o paciente é o grande beneficiado, pois encontra nela as “vitaminas” para o seu processo de cura. 

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A Importância da Transgeracionalidade.

A Importância da Transgeracionalidade

O estudo da Transgeracionalidade ou da transmissão psíquica entre gerações, demonstra a importância do legado que é herdado dos antepassados e que constitui a riqueza dos costumes e tradições. Observa-se, por exemplo, essas características nas famílias de imigrantes, que preservando suas culturas de origem, mantém viva a história de seus ancestrais, na medida em que valorizam o significado de sua herança e os transmitem à seus descendentes.
Nesse processo de transmissão, que pode ser tanto de aspectos positivos, quando aqueles considerados negativos, se forem feitos de viva voz, ou seja, quando são falados entre uma geração e outra, com espaços para serem pensados, discutidos e elaborados, maior será a possibilidade de se tornar assimilados e enriquecerem a vida psíquica e a vida de relação dos indivíduos que compõe essa família.
Inúmeras vezes não são assim que acontece, principalmente quanto aos assuntos considerados negativos, ou condenados e vergonhosos. Nesse caso é frequente observar-se um silêncio, uma interrupção nos diálogos, criando um clima de suspense e de interrogação entre as pessoas, principalmente para a geração seguinte que ouve a história entrecortada. Paira no ar um clima de mistério, até de constrangimento, de dúvida e desconfiança. O que se passa por aqui? ou o que não querem ou não podem nos contar? Sentimentos de incertezas, inseguranças brotam nas mentes dos descendentes originando pensamentos fantasmáticos de qualquer natureza, impedindo que essas pessoas construam sua própria identidade, alienadas que ficam nos mandatos de outros.
Por mais vergonhoso ou trágico que seja o conteúdo calado é imprescindível que ele venha à tona, que não seja enclausurado dentro da mente dos descendentes, para que esses se sintam verdadeiros herdeiros de sua origem e possam dar continuidade à sua história.
Quando isso não é possível acontecer de forma natural, pode-se pensar em procurar uma ajuda profissional que certamente criará um espaço para que essas demandas sejam acolhidas e elaboradas.
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o Efeito da Resiliência.

Tragédia ou Transformação na Educação: o Efeito da Resiliência

Tragédia, na antiga Grécia, era uma peça teatral em verso, ao mesmo tempo dramática e lírica. Nela figuravam personagens heroicos, em ações nobres e dramáticas. Tragédia é um acontecimento funesto que desperta piedade, como a mesmice da educação, que muda para não mudar. A transformação da educação é possível, basta dar o primeiro passo: a escola querer mudar, e os profissionais terem a coragem de protagonizar essa conquista.
O título é provocativo, mas não deixa de expressar a contradição presente na escola de ensino fundamental, onde a educação navega entre êxitos e fracassos.
Vejamos então...

PONTO DE PARTIDA

Vivemos o cotidiano como se percorrêssemos labirintos que nos levam a enfrentar tragédias com naturalidade. Com semelhante displicência não avaliamos se o planeta em que vivemos poderá ter outros milênios, pois o homo sapiens tornou-se eficiente gestor de sua autodestruição, na qual se entrelaçam drogas, guerras, ações criminosas, injustiças sociais. E para completar, desencontros afetivos no cotidiano, entre pessoas que se entendem e se desentendem ao navegarem pelos amores e ódios de suas relações.
O paradoxo é que nossa sobrevivência depende de nós, seres humanos, que, por sua vez e com urgência, precisam resgatar a esperança, o positivo de vivências exitosas, para conseguirem salvar a si mesmos e ao planeta, de múltiplos fracassos. Nesse cenário, o alerta máximo está nas mãos dos cidadãos adultos, que deverão provocar uma urgentíssima ruptura de caminhos. Caminhos por onde passam crianças e jovens, na família e na escola. Caminhos que, muitas vezes, são descaminhos e, com certa frequência, estimulados pelos meios de comunicação de massa, pela televisão, pela internet. A ruptura implica, entre outras coisas, limpar o lixo sociocultural a que as novas gerações têm fácil acesso e, em seu lugar, ou concomitantemente, fazer proliferar novas possibilidades, não apenas para a sobrevivência na tragédia, mas para se viver a vida com efetivas chances de êxito. Êxitos decorrentes de formarmos cidadãos capazes de se pensarem, e ao mundo, de um modo crítico e criativo, de enfrentarem desafios, de viverem o seu tempo com saúde física, mental e social; de pertencerem a uma sociedade humanizadora, que não vive à espera de soluções miraculosas, mágicas. Cidadãos capazes de superar a confusão moral que desrespeita valores básicos dos seres humanos, dos quais destaco: o respeito mútuo, a corresponsabilidade, a solidariedade entre “um eu e outro”, sem o que e aos poucos e, quem sabe, sem perceber, estamos criando uma sociedade de “homens de pedra”.
Que caminhos estão tomando a nossa sensibilidade? A erosão de valores humanos intensifica-se de tal modo que, atualmente, a convivência humana é marcada por virtudes e vícios, pela aceitação desse modus vivendi que atua contra a vida e não a favor dela, que estimula a desestruturação interna das pessoas, de seus grupos e de suas instituições, criados para abrigá-las e protegê-las, socializá-las e humanizá-las. Não desqualifico as conquistas humanas, apenas enfatizo a perda de critérios, de bom senso, e de limites. Vivemos sucessivas crises e mudanças que, atropeladas por obstáculos nem sempre superadas, afetam decisões sobre o que incorporar à sociedade.
Quais as consequências, a curto, médio e longo prazos, de vivermos, cronicamente, situações psicossociais adversas? Há soluções?
As soluções, talvez, venham pela clara conscientização de como, na contracorrente, podemos criar antídotos aos efeitos dessas situações de risco. Como libertar crianças e jovens dos danos psicossociais que essas vivências podem causar?
Na escola, parece estar uma dessas soluções. Como educadora e psicóloga social, há algum tempo, me preocupo com os conflitos vividos por educadores e educandos, especialmente no contexto da escola de ensino fundamental. Estou convencida que a solução dependerá da conjunção de dois fatores: motivação coletiva para uma reviravolta da escola; fortalecimento do vínculo em torno do ato de aprender. Como realizar essa conjunção? Inicialmente, considerando-se o efeito da resiliência, ao se contrapor as “forças de vida” às “forças de choque”, e completando, a capacitação dos professores para viverem com os alunos um processo de aprendizagem em grupo. O efeito da resiliência
Resiliência é um conceito da física que significa a resistência de um corpo aos choques; considera também que a fragilidade de um corpo é tanto menor quanto maior é a sua resiliência. Pesquisas nessa área vêm sendo feitas com jovens, e os resultados têm sido positivos.
Minha hipótese é a viabilidade da superação das adversidades da escola, pela proposta otimista da resiliência. Penso na escola de ensino fundamental, porque esta instituição concentra motivações com as quais se desenvolvem as novas gerações e, num movimento centrífugo, poderemos fortalecer as “fontes de vida”, em contraponto às “forças de choque”. Fonte de vida, ou fonte transformadora de atitudes de mudança sustentadas não apenas em aprender conteúdos de uma disciplina, mas, por meio deles, o “aprender a aprender a viver”, o aprender em grupo.
Considero válido estimular e fortalecer a resiliência no contexto da escola, instituição que acumula os desacertos da família e da sociedade, sobrecarregando-se com dificuldades que são dela, com outras que não são, e que a paralisam (fontes de choque), inviabilizando a convivência e o aprender (fontes de vida).
Na escola, entendemos a resiliência como a relação professor-aluno-conhecimento (corpo), resistindo a um contexto sobrecarregado de dificuldades internas/externas, que inviabilizam uma convivência de qualidade, dos professores com os alunos em torno do aprender (choque).
A equação resili ente é:

Fontes de vida
Fontes de choque
relação professor-aluno
>> resistindo >>
ao contexto da escola
(corpo)
(choque)
vínculo em torno do
conhecimento
>> no >>
ato de aprender

O efeito da resiliência será uma reviravolta no status quo de múltiplas violências vividas por professores e alunos na escola e, de modo especial, na sala de aula. Dependerá de um movimento intenso e intensivo, que provoque uma apropriação constante, do “potencial resili ente” circulante na escola.

CAPACITAR O PROFESSOR

Os professores têm sido capacitados em cursos e formações continuadas, mas têm havido carências relativas à qualidade do vínculo professor-aluno-ato de aprender. Há um desconhecimento de como esse processo, essencialmente grupal, produz processos psíquicos grupais que têm dinâmicas regidas por leis próprias, às quais o professor precisa se capacitar para poder decodificá-las. Isso significa compreender os significados do que é dito e do que não é dito, ficando nas entrelinhas da comunicação, conteúdos que permitirão ao professor entender se o aluno está aprendendo e o porquê de não estar, decodificando esses implícitos que são decorrentes da atualização de saberes anteriores e de como eles são, ou não, incorporados ao aprender um novo conhecimento. Com essa capacidade, o professor intervém com a qualidade de quem está facilitando o protagonismo dos alunos, ao estimular um processo de aprendizagem grupal, em que os saberes dos alunos incluem dúvidas, críticas, dificuldades de entendimento, ansiedades, e sugestões em relação ao novo conhecimento, aceitos e intermediados, reconhecidos e estimulados pelo professor e explorados entre os alunos. Nessa qualidade de produção conjunta, o aluno terá efetivos meios de incorporar o novo conhecimento à uma nova visão de vida.
A riqueza dessa nova aprendizagem que se articula, que se multiplica, nesse aprender coletivo do espaço grupal da sala de aula, constitui-se na fonte de vida que irá impactar a força de choque, as dificuldades e crises vividas pela escola.
A resiliência irá permitir o fortalecimento da identidade do professor e do aluno, pois a construção conjunta do conhecimento pelos alunos, intermediada pelo professor, se configurará como raízes internas do “tornar-se humano”. O aluno que, ao aprender o conteúdo de uma disciplina, aprende também a viver, renasce como cidadão pelo exercício exitoso do co-respeito, da corresponsabilidade, pela complementariedade e co-operatividade crescentes entre alunos interligados no espaço grupal da sala de aula. Nesse vínculo em torno do aprender, professor e aluno superam o anonimato e a violência na educação. O aluno se transforma a partir de seu interior, pela ação de um grupo social humanizado.
As falhas na educação decorrem de estratégias e táticas que não viabilizam a proposta educativa. No momento crucial do ato de aprender é que forças de choque têm vencido as fontes de vida, ao não ocorrer a transformação de atitudes e de comportamentos dos alunos. A transformação não tem ocorrido em função da ausência de um vínculo com o professor, fundado no acolhimento das demandas internas dos alunos.

SUPERAR DIFICULDADES

O “aprender a aprender” na sala de aula supõe superar dificuldades, as quais formatam a contradição das tragédias e das transformações da educação, de êxitos e fracassos da escola.
O lado trágico da escola começa pela baixa autoestima do professor em consequência de sucessivos descréditos de seu papel, e da desvalorização de sua função. Daí, vem a sensação de impotência, completando o cenário das frustrações em que vivem professores e alunos: alunos que não conseguem aprender, ao lado de professores que não conseguem ensinar; excesso de alunos em sala de aula, impedindo o reconhecimento de cada um por parte do professor, ou, pior ainda, o desconhecimento do nome do professor pelo aluno (alerta máximo da falência do sistema); indisciplina do aluno que inviabiliza qualquer aula; indisciplina que, por um lado, precisa receber claros limites por parte do professor e da escola, mas que, por outro lado, deve ser interpretada como um sinal, um sintoma, expresso por alunos que estão trazendo à tona o desagrado, o desprazer, a rejeição ao atual “aprender” desenvolvido na sala de aula, onde muitas vezes o desrespeito se generalizou.
O lado exitoso da escola está no esforço de professores e alunos quando, apesar das adversidades, conseguem se libertar dos riscos das “forças de choque”, ou seja, das agressões, das desqualificações que criam um clima em que não se consegue nem ensinar nem aprender os conteúdos das disciplinas, e, menos ainda, incorporar o aprender à vida; no esforço constante de recomeçar, destaco a dedicação sem limite do professor que realiza como pode sua vocação.
Ao contrário do que se poderia esperar dos investimentos feitos na escola o que constatamos, geralmente é um fraco resultado na sala de aula. Mudam-se muito para pouco se mudar atitudes de professores e de alunos, pois as estratégias e táticas adotadas geralmente não resistem a uma avaliação mais profunda. E, muitas vezes, já se prevê o fracasso desses investimentos, se mais não for, pelas falhas em ganhar a aceitação das mudanças por parte dos que irão realizá-las, provocando uma reação em cadeia de mal- entendidos, boicotes e frustrações. O pior, quando a porta da sala de aula se fecha, o professor que não aceitou as mudanças, além de pacientemente esperar o fracasso, continua o que sempre fez, alheio às ansiedades do aluno frente ao aprender.

TRANSFORMAR A ESCOLA

Mas afinal, a escola pode ou não ser transformada, de modo a obter efetivos resultados? Pode ou não superar a tragédia e viver o êxito?
A minha convicção é que a escola pode ser transformada e a estratégia deverá conter meios para atingir todos os seus segmentos, simultaneamente, e com um projeto adequado a essa árdua empreitada. O movimento transformador deve ser intenso, constante, com táticas que expressem a possibilidade de uma extensa co-operatividade entre todos, ou seja, de ações a serem desenvolvidas simultaneamente em todos os espaços internos da escola, envolvendo diretores, professores, alunos, funcionários e pais, assim como, no espaço de fora da escola, a comunidade. O esforço é urgente e de todos.
O projeto contagiará e gratificará professores e alunos, seus autores, ao terem suas necessidades psicossociais consideradas, e clareza do que se espera deles para a efetiva implantação, acompanhamento e consolidação do projeto de mudança. A constante avaliação do processo em desenvolvimento deve ser feito com adequados recursos técnicos, e seus resultados deverão ser apresentados às diferentes categorias para que os dados sejam incorporados às ações. A transformação irá ocorrer por mudanças de atitudes. Estas supõem que se considerem também a presença de atitudes de sabotamento, exigindo especial atenção.
Os resultados deverão ser visíveis nas relações entre todos os profissionais e, mais efetivamente, nos vínculos entre professores e alunos em torno do ato de aprender. Se os investimentos feitos não chegarem como resultados na sala de aula não terá havido transformação.
Concluindo, a transformação da escola mudará o perfil do educador, e, quando isso ocorrer, significará que teremos transformado a educação. Teremos tornado possível o aparente impossível, conseguir humanizar a escola, superar tragédias e investir com êxito na educação.
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